The Correspondent, de Virginia Evans, fez uma coisa curiosa e bonita este ano: levou milhares de leitores a digitar romance epistolar numa barra de busca, uma expressão que a maioria não precisava usar desde a escola, porque queriam mais daquilo, fosse lá o que fosse.
O que era aquilo? Um dos truques mais antigos da ficção. Um romance feito de cartas mostra a pessoa por dentro, nas palavras dela, com todas as pequenas evasivas e os rompantes de sinceridade que um narrador trataria de aparar. Ninguém te conta como a personagem é. Você recebe a correspondência dela em mãos.
Aqui vão doze, sem ordem de preferência, e no fim um palpite sobre por que esse formato se recusa a ir embora.
O livro do momento
The Correspondent — Virginia Evans (2025). Sybil Van Antwerp tem setenta e três anos, é aposentada e passou a vida escrevendo cartas: para os filhos, para escritores, para um homem que amou um dia, para gente que nunca responde. O romance é feito dessas cartas e das respostas que, enfim, chegam. Fala de como uma pessoa vai se construindo por escrito ao longo de décadas, e do perigo de ser a única a manter a correspondência viva. Se você já guardou cartas numa gaveta, esse livro vai te pegar de jeito.
Os clássicos
84, Charing Cross Road — Helene Hanff (1970). Vinte anos de cartas de verdade entre uma escritora nova-iorquina sem um tostão e uma livraria de Londres. Ela encomenda livros, eles mandam, e no meio do caminho aquilo vira uma amizade que nenhum dos dois lados sabe muito bem como chamar. É curtinho, e é a coisa mais pura desta lista.
Papai Pernilongo (Daddy-Long-Legs) — Jean Webster (1912). As cartas de uma órfã para o benfeitor anônimo que paga a faculdade dela, escritas com aquela liberdade muito particular de quem escreve para alguém que nunca responde. É bem mais engraçado do que a premissa promete.
Drácula — Bram Stoker (1897). Cartas, diários, telegramas, o diário de bordo de um navio, um recorte de jornal. Todo mundo se lembra do vampiro; ninguém se lembra de que o livro inteiro é uma pilha de documentos reunidos por gente apavorada tentando entender o que está acontecendo. É por isso que ainda dá medo.
Frankenstein — Mary Shelley (1818). A moldura são as cartas que um explorador manda do Ártico para a irmã. Dentro delas, o doutor conta a história dele; dentro da história do doutor, a criatura conta a sua. Um romance em cartas sobre o perigo de não ser ouvido.
As ligações perigosas (Les Liaisons dangereuses) — Choderlos de Laclos (1782). Dois aristocratas destroem pessoas pelo correio. As cartas são armas, e o formato é o xis da questão: todo mundo no livro está fazendo teatro para alguém que lê, e quem lê nunca é quem eles imaginam.
Os contemporâneos
A sociedade literária e a torta de casca de batata (The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society) — Mary Ann Shaffer e Annie Barrows (2008). Em 1946, uma escritora de Londres recebe a carta de um desconhecido de Guernsey, que encontrou o nome dela num livro de sebo. A troca de cartas vai crescendo até abraçar a ilha inteira. Acolhedor sem ser água com açúcar.
As vantagens de ser invisível (The Perks of Being a Wallflower) — Stephen Chbosky (1999). Charlie escreve para um desconhecido (“Querido amigo”) porque ouviu dizer que essa pessoa é gente boa e não sabe quem ele é. Toda comunidade de penpals do mundo gira em torno dessa frase.
A cor púrpura (The Color Purple) — Alice Walker (1982). As cartas de Celie para Deus e, depois, para a irmã, ao longo de trinta anos. Aqui o formato não é um artifício: é o único jeito que a personagem tem de dizer qualquer coisa.
Cadê você, Bernadette? (Where'd You Go, Bernadette) — Maria Semple (2012). E-mails, bilhetes, faturas, correspondência do FBI, tudo reunido por uma garota de quinze anos tentando encontrar a mãe. A prova de que o romance epistolar sobreviveu à morte da carta engolindo tudo o que veio no lugar dela.
Dear Committee Members — Julie Schumacher (2014). Um romance inteiro feito de cartas de recomendação, escritas por um professor de literatura que já perdeu a paciência. É o livro mais engraçado da lista e, lá no fundo, um dos mais tristes.
Meet Me at the Museum — Anne Youngson (2018). A mulher de um fazendeiro inglês escreve para um museu dinamarquês sobre um corpo da Idade do Ferro; um curador responde. Duas pessoas na casa dos sessenta descobrem, carta a carta, que a solidão de cada um estava afinada no mesmo tom. Se você gostou de The Correspondent, comece por aqui.
E um que não é romance
Cartas a um jovem poeta — Rainer Maria Rilke (escritas entre 1903 e 1908). Dez cartas de verdade de Rilke para um rapaz de dezenove anos que tinha escrito para ele pedindo conselhos. Rilke nunca chegou a conhecê-lo. Esses conselhos já passaram por cem anos de desconhecidos que também nunca o conheceram, o que diz muito sobre para quem as cartas são escritas, no fundo.
Por que esse formato nunca morre
Toda geração anuncia que a carta morreu, e toda geração produz um romance epistolar que todo mundo lê. Nem o telegrama, nem o e-mail, nem o telefone deram cabo dele. Cadê você, Bernadette? é feito de e-mails. The Correspondent se passa nos dias de hoje.
E não é por nostalgia. É que a carta é o único formato em que uma pessoa fica totalmente a sós com quem lê. Não tem narrador no meio, nem cena, nem outros personagens olhando. Só alguém decidindo, frase por frase, até onde abrir o jogo com uma pessoa que nem está ali. Os romances usam a carta porque é o mais perto que a ficção consegue chegar de alguém te confiar a correspondência íntima.
E isso, claro, ainda dá para ter fora dos romances. O Kindredly é um cantinho onde desconhecidos escrevem cartas uns para os outros, sem perfil e sem rosto, e o que junta as pessoas é o jeito como cada um escreve. Se você acabou de ler The Correspondent e ficou com vontade de mais cartas, hoje tem quinze cartas na mesa. Uma delas provavelmente é de alguém que também acabou de fechar o livro.